Todas as Cartas de Amor são Ridículas (Álvaro de Campos)
Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.
Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.
A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.
Escolhi este poema para falar de um filme que assistimos neste final de semana. Chama-se UP: Altas Aventuras (em português). Gente, me perdoem, mas vou fazer um resumo do filme. Não pretendo falar a história e sim minha percepção. Então quem não quer saber que vão para outro lugar.
Tudo começa com um menino sonhador, porém tímido (Carl). Este menino tem seu próprio mundo, suas próprias histórias. Um belo dia este mundo é subitamente invadido por uma outra sonhadora, porém extrovertida menina (Ellie).
Eles se tornam amigos de infância e vão planejando o futuro juntos. Ellie sonha alto. Muito alto. Tão alto que ela tem um livro de coisas que ela pretende fazer no futuro. Este livro é um segredo que apenas Carl conhece. Neste momento começa a emoção no filme.
Carl e Ellie crescem e a amizade entre eles cresce junto e se transforma em sentimentos cada vez mais forte. Até que eles se casam e continham a fazer planos e planos.
Os dois constroem uma vida toda juntos. Gente, é lindo ver. Só quem tem uma vida a dois construída de verdade entende esta parte. Eles fazem tudo juntos. Vão ao mercado. Limpam pequenos detalhes da casa. Deixam marcas dos dois em pequenos pontos da casa como que demarcando o território. A música de fundo é linda e o clima envolvente.
A primeira parte do filme se dedica a passar todas as etapas da vida de um casal. A construção da casa. Os sonhos de ter um bebê. A frustação da perda deste bebê. A dificuldade em guardar dinheiro frente aos problemas do dia a dia. O envelhecimento. A doença. Finalmente a morte de um dos membros do casal. Só que tudo é tão docemente passado que é difícil não se envolver e se encantar.
Não sei para vocês. Para mim este com certeza será um momento muito complicado. Claro que vou viver minha vida. Não tenho dúvidas disto. Mas não estou nenhum pouco preparado para isto. Por mais que me prepare. Não tenho certeza se quero me preparar para isto. A discussão está em outro nível.
Vamos voltar. Bom, Carl então se vê sozinho. Fazendo as mesmas coisas que fazia com Ellie. Nos mínimos detalhes. Este momento é um pouco doido. Porque novamente. Só quem viveu uma relação longa sabe. São nos detalhes que os relacionamentos se diferenciam. Tem até uma música do Roberto que fala isto. Enfim. Carl então estava preso a um passado que não retornaria e por isto não tinha condições de enxergar o futuro, por mais negro que fosse.
Neste interim, surge um escoteiro tentando ajuda-lo. Na realidade o pobre do escoteiro que ganhar uma medalha por ajudar um idoso. Carl está tão amargurado, que se recusa inclusive ser ajudado e inventa qualquer bobagem. Mas o pobre do escoteiro não desiste.
Bom, a história dá uma guinada e Carl para fugir do mundo, de uma perseguição e para concretizar um antigo sonho de Ellie faz a casa inteira voar em milhares de balões de gás (amores, favor lembrarem que se trata de uma história fantástica com direito a quase tudo).
Esqueci de dizer, né. Ellie tinha um sonho antigo de morar num paraíso sul americano. Carl então resolve concretizar este sonho. Colocar a casa inteira neste paraíso. Aí a aventura começa. Lembram do escoteiro? Pois bem, nosso herói (sim o herói é o escoteiro) estava escondido na varanda da casa e é um show a parte no filme.
Mas a diante também acabamos por descobrir que o escoteiro também é gente como a gente. O menino tem um pai ausente. Vive num mundo de faz de contas, com sérios problemas de convivência. Inclusive hoje conversando com minhas amigas do saúde brincar (projeto do Instituto Fernandes Figueira) ficamos filosofando se o problema de obesidade de Russell não estaria relacionado com questões de aceitação etc etc. Coisas do povo da saúde mental (rsrs).
A verdade é a seguinte. Carl e Russell se transformaram em bons amigos. Ambos serem solitários. Um pela perda de um grande amor. Outro pela ausência. Esse ponto em comum uniu os dois.
A história continua. Agora uma nova aventura. Eles tem que, além de colocar a casa no lugar, salvar uma ave raríssima de um caçador sanguinário. Coisas da Disney.
Para salvar a tal ave rara eles contam ainda coma ajuda de um cachorro que aparece. Depois eles descobrem que o cachorro pertence ao tal caçado sanguinário. Também coisas da Disney.
Enfim. A história agora segue num estilo bem mais corrido. A final tem que agradar a garotada também Aparece o homem mal de verdade. Até então estava difícil para as crianças saberem quem era o bom e o mal da história. Porque tanto Carl quanto Russell diversificavam no papel de bom e mal da história. Eles são humanos (apesar de serem personagens de um desenho animado).
A historia continua e continua. Até o momento em que Carl tem que fazer uma escolha. A mais dura e mais bonita do filme. Continuar preso ao passado e realizar o sonho de Ellie ou se livrar deste passado e salvar seus novos amigos. Porque isto. Os balões de gás que sustentam a casa já perderam a força e não agüentam mais o peso. Para isto, Carl terá que se livrar de literalmente tudo. Literalmente tudo mesmo. Tudo que o prende a Ellie terá que ser deixado para trás para que ele possa salvar seus novos amigos.
Neste momentos, tinha neguinho com a mão na cabeça se coçando. Por alguns momentos Carl resolve se prender ao passado e realizar o sonho de Ellie. Senta na antiga cadeira do casal e folheia o álbum de “Coisas que Ellie gostaria de fazer no futuro”. Gente este momento é cheio de emoção. Carl descobre que as “Coisas que Ellie gostaria de fazer no futuro” já foram todas feitas, só que com Carl. Um casamento feliz. Uma velhice feliz. Uma vida a dois toda feliz. No final do álbum está escrito. Amor, siga sua história a partir daqui.
Lendo isto, Carl finalmente compreende a necessidade de tocar a própria vida e se desvencilhar do passado. Não se trata de esquecer Ellie. Trata-se de dar espaço para que coisas novas entrem. Para isto é necessário que as coisas velhas saiam. É isto que ele faz. Joga tudo da casa literalmente fora. Assim a casa fica leve e ele consegue salvar todos os amigos.
Bom, como ultima emoção do filme. Não poderia faltar, claro, é a entrega da medalha pela ajuda ao idoso de Russell. Outro momento carregado de emoção. Lembram que Russell tinha um pai ausente. Bom, continuou e claro que faltou a cerimônia. No entanto, Carl foi e fez questão de entregar a medalha. Além desta medalha, ele também entregou uma outra medalha que para ele (Carl) e Ellie tinha um significado muito especial. Era a medalha que uniu os dois. Não houve quem não lacrimejasse neste momento e não vou contar este final. Todos merecem assistir.
Gente, Vale a pena assistir. Não percam.
beijos e abraços.